20 de abr de 2012

Sobre solidão..

Começo este post com um pouco de receio. Não gosto de escrever textos tristes, ou que exponham demais o que estou sentindo. Quando preciso fazer isso, escrevo em um caderno e guardo, como quando era adolescente. Assim as memórias ficam só para mim.

Por outro lado, acredito que seja importante mostrar que o "Sonho Americano" não é tão lindo assim, afinal. Principalmente pelo fato de muitas futuras Au Pairs chegarem ao meu blog, tenho para mim que devo falar sobre os dois lados da moeda.

Ainda não sei dizer se já senti homesick. Sinto saudade da minha família, mas não exatamente de algo específico, ou do que eu costumava fazer no Brasil. Sinto saudade, mas não falta. Acho que ainda não é homesick, talvez. Porém, em quase seis meses vivendo aqui, posso dizer que já senti o que é solidão.

Uma vez ouvi uma pessoa dizer que "na América todo mundo é sozinho", e com o tempo percebi que isso é mesmo verdade. No Natal, por exemplo, passei entre diversas pessoas, mas todas vivendo sozinhas, ninguém relacionado por parentesco. Amigos, conhecidos, todos só.

A experiência mais recente foi a ceia do Passover (ou Pesakh). Minha host family não comemora a Páscoa, portanto a Sexta-Feira Santa é, para eles, o primeiro dia do Passover, um feriado Judeu que dura 9 dias. Na sexta-feira houve a ceia aqui em casa. Os pais da minha host, a irmã, e o cunhado vieram participar. Eles me convidaram, mas preferi passar com as minhas amigas, que também estavam sozinhas.

Quando as meninas vieram me buscar, na sexta, e eu passei pela mesa onde todos estavam reunidos, senti um vazio inexplicável. Uma família reunida ali, com a sua crença e seu ritual. No mesmo instante, minha família também estava reunida no Brasil, aguardando a Páscoa. E, separado de tudo isso, havia eu. Somente eu.

A solidão é o motivo pelo qual muitas Au Pairs passam o day off todo fora de casa, na companhia de outras Au Pairs. Ficar trancada no quarto nunca é uma opção. A gente se vê só, e vê as amigas também na mesma situação, e isso nos faz querer ajudá-las. É quase um ciclo sem fim. Uma tentando ajudar a outra, mas ao mesmo tempo também se ajudando.

Quantas vezes não mandei mensagem para a Marion dizendo que não acordei bem, e em questão de minutos ela já estava pronta pra me encontrar em algum lugar. E a gente não precisa fazer nada em especial. Sentar numa Starbucks por algumas horas já é mais que suficiente.

E eu faço o mesmo por ela ou pela Virginia (a nova amiga, vinda da Argentina). Mesmo que eu esteja muito cansada, querendo dormir até mais tarde, querendo fazer nada, e elas me chamem, eu vou. Vou, porque sei que isso é bom para elas. Vou, porque sei que elas também fariam o mesmo por mim. E já fizeram, muitas vezes.

Definir o que é solidão, é difícil. Você pode estar jantando com a sua host family, mas de repente ter um insight e se sentir só. Olhar tudo à sua volta, e não reconhecer nada. No meu caso, é chegar tarde da noite em casa, e não encontrar meu irmão ainda acordado. É o final de semana terminar, e meus pais não voltarem para casa no domingo à noite, depois de terem viajado como fazem toda semana.

Mesmo morando em uma casa confortável, tendo muita regalia que toda au pair adoraria ter, um carro na garagem só para mim, liberdade para sair, e crianças me abraçando e me dizendo que me amam o tempo todo, ainda me sinto só, às vezes.

Aqui não tem a conversa durante o café da manhã. Aqui não tem ligar pra minha mãe durante o dia só para perguntar se ela precisa que eu leve algo do mercado para casa. Aqui não tem assistir futebol com meu pai no domingo à tarde. Aqui não tem arrumar a mesa com a cunhada enquanto meu irmão cozinha. Aqui não tem a minha essência.

Solidão, aqui, é estar presente de corpo, mas projetar a mente longe, muito longe.

"Eu preciso andar um caminho só. Vou buscar alguém, que eu nem sei quem sou."
(Los Hermanos, Primeiro Andar)

Um comentário:

  1. Oi Aline, gosto de ler seus posts, comecei a dar aulas esses dias e lembrei de nossas aulas do projeto da faculdade. Fico super feliz por vc estar aí, vc é uma vencedora. Eu sou a favor de sempre escrevermos coisas alegres, mesmo que sejam nos nossos caderninhos...falo por experiencia propria rsrs a gente fica mais triste quando escreve...Desejo que essa saudade que vc sente seja saudavel, que vc curta cada momento e pode acreditar, vc ja esta deixando marcas de amor nestas pessoas que vc convive e tb sera lembrada por elas com carinho. Boa sorte em sua vida e que vc continue sua vida como au pair da melhor forma possivel, são meus sinceros votos. Giovana

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