29 de ago de 2012

Dez meses, dez impressões

Começo hoje meu décimo primeiro mês como au pair (ontem completei dez meses com a minha família), e com isso me lembrei de um post que fiz no meu primeiro mês, falando a respeito das primeiras impressões sobre idioma e comportamento. Pensando neste post, e em muitas coisas que tenho visto por este universo, principalmente nos grupos do Facebook, resolvi fazer um novo balanço com este assunto.

01. Sobre a adaptação

Passei por diversas fases aqui, em uma só família. Além disso, ainda sou a primeira au pair da família. A primeira foi enquanto minha host ainda não trabalhava fora de casa. Depois ela conseguiu um emprego e conseguimos finalmente ter um schedule fixo. Em seguida, nos mudamos de cidade. Algumas semanas mais tarde, as crianças entraram de férias, e, finalmente, o ano letivo começou.

Tirando as fases, que fizeram com que meu schedule sofresse várias alterações, a minha adaptação em si foi indolor. Eu não sei dizer quando me adaptei, porque tudo aconteceu muito naturalmente. Dirijo confiante, durmo bem, alimento-me das mesmas coisas que eles aqui em casa comem, encontrei meus tamanhos para roupas e sapatos, enfim, minha vida tomou forma do lado de cá como poderia ter acontecido no Brasil, caso eu tivesse ido morar em Campinas, por exemplo.

02. Sobre o relacionamento

Logo de início já rolou uma cumplicidade bem legal com a minha host. Ela é muito "mente aberta", adora conversar, conta sobre a vida dela, e também ouve. Uma coisa legal que aconteceu entre a gente foi que, devido a um mal entendido, eu aprendi a me abrir e dizer o que sinto, e com isso ela aprendeu a enfrentar discussões em vez de deixar que os problemas se resolvam sozinhos. Foi a única vez que precisamos sentar e conversar seriamente, mas foi a melhor coisa que fiz em toda a minha vida! Desde então, a nossa relação só melhorou. Se existe algo que ela acha que não está certo, ela já vem conversar comigo sem cerimônias, ouve meu lado, e sempre chegamos a um consenso.

Com as crianças, o relacionamento foi acontecendo aos poucos e naturalmente. Me lembro de quando o pequeno cruzava os braços e chutava a minha canela antes de entrar no carro, em frente à escola e às professoras, porque queria que a mãe fosse buscá-lo. Totalmente compreensível, já que ela era a única que fazia isso, até eu chegar. Hoje, quando vou buscá-lo na escola, agora a pé, ele vem correndo e se joga nos meus braços, e depois ainda anda o caminho todo de mão dada comigo. E ai de quem me chamar de "nanny" na frente dele! Ele logo corrige dizendo que eu não sou a nanny, que eu sou a au pair dele!

As meninas, para mim, são como irmãs mais novas. A de nove anos ainda é bem criança, ainda corre pela casa com o pequeno ou até com outras crianças mais novas. Ela é super carinhosa, e sempre me surpreende me abraçando, quando eu menos espero. Já a mais velha está naquela fase de transição entre deixar de ser criança e tornar-se adolescente. Eu me vejo muito nela e acho super gostoso assistir a como ela se comporta, e lembrar de como eu me comportava.

Os avós maternos são outros fofos! Sempre que passam algum tempo aqui, eu me sinto como se meus próprios avós estivessem pela casa, pois o clima de família é sempre muito forte. Eles são bastante rígidos (o avô é até com a minha host), mas são muito carinhosos. Não me desautorizam se estou trabalhando, e tomam conta das crianças quando estou de folga.

Todo mundo aqui me respeita e isso faz eu sentir que sou parte da família, assim como uma peça de um quebra cabeças. Tenho meu papel aqui e minha importância, minha responsabilidade. E isso me basta.

03. Sobre a rotina

Loucura é a palavra! Meu schedule agora é fixo, mas cada criança volta da escola em um horário, então isso faz com que eu saia bastante de casa. De manhã sou responsável pelo café da manhã e por arrumar os lanches para a escola. Minha host os leva, junto de outras mães, pois estudam bem perto de casa agora. Quando o pequeno sai da escola, eu o busco e aí começo a trabalhar novamente, até por volta das 6pm, quando minha host volta do trabalho.

Geralmente meu schedule resulta em aproximadamente 40 horas. As horas restantes, para completar 45, minha host acaba usando ou para sair uma noite para jantar, ou no sábado de manhã para ela ir ao Yoga ou fazer qualquer outra coisa. Essas horas extra nós combinamos todo domingo à noite como serão usadas, então sempre tenho minha semana programada.

Basicamente, meu trabalho com eles é levá-los onde precisam, e supervisioná-los. Fazem homework sozinhos, não precisam de ajuda com banho etc. Lavo as roupas três vezes por semana (segunda, quarta e sexta), faço almoço para o pequeno e cozinho o jantar pelo menos uma vez por semana, para todos nós. Toda quarta-feira levo as crianças para a casa do pai, assim como um final de semana sim e outro não.

Meu schedule não é nada complicado, mas é bastante cansativo. Entretanto, eu adoro!

04. Sobre o idioma 

Eu pensava que falava Inglês, antes de morar aqui. Meu Inglês era péssimo! Eu entendia com facilidade, mas era muito ruim para falar. Hoje já não traduzo mais antes de falar. As palavras simplesmente saem, naturalmente. E também estou sempre prestando atenção em como os Americanos falam, pois sempre aparecem palavras novas, ou expressões. As crianças ainda me corrigem, e isso eu amo, mas percebo que já não erro mais as mesmas palavras, é sempre algo novo que eu leio ou que ainda não saiba pronunciar. Eu não sei dizer quanto tempo levei para que meu Inglês melhorasse, pois o aprendizado foi acontecendo muito naturalmente.

Algo que me ajudou muito foi ter procurado meninas de outros países, no começo, para conviver. Eu não tinha nenhuma amiga Brasileira, que eu saísse ou passasse muito tempo junto, até nos mudarmos para Ashburn, então isso me fez praticar muito o Inglês. A amiga Francesa que eu tinha, infelizmente não acompanhou a minha mudança e esta amizade acabou morrendo. Já a amiga Argentina, esta sim continua mais forte do que quando morávamos próximas! Ainda nos vemos e conversamos muito pelo Facebook. Amizades daquelas para levar com a gente quando voltar para casa!

05. Sobre os estudos

Com a bolsa de $500 fiz dois cursos, durante a Primavera: Intermediate Reading and Composition, e Introduction to Public Speak, na Northern Virginia Community College (NOVA). Ambos totalizaram $580, e eu paguei a diferença. Também paguei pelo livro que usei no primeiro curso.

Optei por fazer cursos de ESL (English as a Second Language) pelo simples motivo de que eu gosto de estudar Inglês. E não me arrependo. Estes cursos também me deram 7.0 CEUs, ou seja, mais que o necessário para o primeiro ano.

Para o segundo ano vou continuar com ESL, ainda na NOVA. O primeiro curso começa agora no Outono, e será o de Accent Improvement, no valor de $295 e um total de 3.0 CEUs. Com o valor restante, $205, ainda não decidi que curso fazer para completar os créditos, mas será na Primavera novamente e pagarei a diferença caso necessário.

06. Sobre a culinária

Sinto muita falta do filãozinho com manteiga no café da manhã, assim como do arroz e feijão para almoço e jantar. Quer dizer, sinto falta do hábito de ter estes alimentos, porque me alimento bem com eles, e como de tudo que tem em casa. A única coisa que minha host compra para mim é leite, porque as crianças consomem o orgânico. Fora isso, nunca tive exigências, e sempre gostei de tudo o que ela já preparou, apesar de ser bem diferente do que eu estava acostumada.

Fora de casa é o paraíso da culinária! Aqui você encontra restaurante especializado em comida de qualquer país. Os meus preferidos são os restaurantes chineses, aliás, este tipo de comida eu só comecei a gostar aqui, pois nunca havia experimentado antes.

A culinária Americana é difícil definir. Não é como a Italiana, a qual nos faz pensar em massas, por exemplo.  Mesmo os Americanos acabam brincando que a comida típica aqui é o churrasco (que só tem hamburger e hot dog), burgers, bacon e ovos, panquecas, essas coisas.

Pelo menos aqui em casa a minha host não congela carnes, nem as tempera com antecedência. Toda semana compro peito de frango ou carne de peru moída, e vai direto da geladeira para a panela. O que dá o sabor é sempre algum tipo de molho que se usa junto, mas nunca é um tempeiro específico para a carne. Quando eu cozinho, faço do meu jeito Brasileiro, mesmo seguindo receitas daqui, e sempre fica bom.

07. Sobre o trânsito

Dirijo desde meu primeiro dia trabalhando. Cheguei numa sexta-feira, no sábado a host foi buscar o carro novo dela, e na segunda-feira ela já me entregou uma cópia da chave do Honda Odyssey (minivan) e foi comigo de co-pilota levar as crianças para a escola. Ela me acompanhou assim por umas duas semanas, e depois me liberou para dirigir sozinha. Também já liberou o carro para eu usar no meu tempo off . Com um mês aqui, fui dirigindo sozinha para DC, para ver o show do 3 Doors Down, porque ainda não havia usado o metro e ela preferiu me emprestar o carro.

Tirei minha Driver's License no segundo mês, dentro do prazo de 60 dias vigente no estado da VA. Estudei por algumas semanas, fiz o teste e passei de primeira. Em Outubro ela vencerá, e precisarei renová-la para poder continuar dirigindo no meu segundo ano.

O trânsito aqui é bastante previsível. Dirigir é muito fácil, e os motoristas são muito educados, assim como os pedestres, apesar de estes terem sempre prioridade, porém há horários em que você já pode esperar passar mais tempo na rua do que o de costume. O bom é que o trânsito nunca para. Ele pode ficar lento, mas ainda assim tudo flui. E se for caso extremo, a polícia estará presente para organizar tudo, e facilitar ainda mais a vida dos motoristas.

Já fui até Ocean City, MD, dirigindo (e vou novamente no próximo final de semana), e também já fui para cidades vizinhas, como Bristow, para shows. Não gosto de dirigir em DC, e também não tenho permissão. Quando quero ir para lá, dirijo até o metro e deixo o carro lá. Evito pagar estacionamento caro, e ainda tenho certeza de que o carro estará seguro.

08. Sobre a vida social

Minha vida aqui é muito mais agitada do que era no Brasil. Cheguei sozinha, achei que não teria muitos amigos, mas agora são tantas pessoas, que é até difícil gerenciar e convidar todo mundo para sair sempre!

Hoje tenho bastante amigas Brasileiras, o que me ajuda a amenizar a saudade de casa. Acostumamos sair todo final de semana, sempre um barzinho no sábado, e um almoço no domingo. Cada dia, uma dirige, assim todo mundo pode se divertir sem ficar dividindo combustível, e tudo mais.

Dá para aproveitar muito o tempo livro aqui. Uma simples ida à Starbucks na quarta-feira após terminar o trabalho já pode te dar o ânimo que você precisava para continuar e terminar a semana. Também dá para viajar, é só saber economizar e consiliar as folgas com as das amigas.

09. Sobre o dinheiro

Deixar um salário de pouco mais de R$ 2 mil ao mês, para viver com um de aproximadamente $ 800, não é nada fácil! Receber $ 195.75 por semana pode parecer muito, mas ainda assim é preciso saber gerenciá-lo. Eu demorei alguns meses para entender qual seria o melhor método, para mim, de economizar, pois eu não consigo viver dançando no abismo! Eu sempre tive minha reserva, e aqui não seria diferente, até porque imprevistos acontecem. Aliás, aqui também paga-se imposto uma vez por ano, portanto caso você atinja o valor em tabela, você pagará. Eu não paguei, neste ano, o imposto referente a 2011, porque foram só 3 meses trabalhando (de Outubro a Dezembro do ano passado). No próximo ano pagarei o referente a 2012, pois terei trabalhado de Janeiro a Dezembro deste ano.

No começo a gente precisa comprar muita coisa, pois não dá para trazer sua casa com você, e também porque você não traz muita coisa na intenção de comprar aqui. Eu trouxe uma mala média com algumas camisetas e 3 jeans. Acabei comprando muito por impulso também, porque é bem mais barato que no Brasil, mas depois acabei nem usando muita coisa.

Hoje tenho uma rotina semanal de economia. Assim que recebo meu pagamento, transfiro para a poupaça entre $100 e $150, dependendo da semana e do que eu preciso fazer durante a mesma. Toda primeira semana do mês eu coloco $30 de combustível no carro para trabalhar, em troca do planos de dados, do mesmo valor, que eu uso no iPhone (isso foi acordo entre eu e minha host), então esta é a única despeza fixa que tenho. No caso de querer viajar, ou ir a um show, ou decidir fazer compras, tenho sempre algo guardado exatamente para isso. Recomendo!

10. Sobre o amadurecimento

Eu não sou mais a mesma pessoa, e isso me deixa maravilhada. Eu era uma menina quando cheguei aqui. Hoje já me vejo como mulher. Dedico-me ao meu trabalho aqui como me dedicaria a qualquer outro no Brasil, independente da área. Levo a vida de Au Pair a sério, pois eu não estou aqui somente fazendo um intercâmbio. Estou aqui com três vidas sob a minha responsabilidade e cuidado.

Eu aprendi a respeitar diferenças, aceitar opiniões, defender as minhas, tomar decisões, e a tolerar mesmo que eu não concorde. Tudo isso não aconteceu da noite para o dia, nem no primeiro mês, nem no segundo. Este amadurecimento foi acontecendo aos poucos, e exigiu muita paciência, de mim mesma, para entender o que estava acontecendo. Hoje, posso dizer que "virei gente grande".

A parte mais gostosa da vida de Au Pair é descobrir quem você é e assistir ao seu próprio crescimento. É incrível notar em você mesma tudo aquilo que antes parecia tão distante. É gostoso tornar-se adulto e ser vista como tal. Quando você percebe, já virou modelo para as crianças, e até um porto seguro. E nada disso tem preço, nada disso será tomado de você quando retornar ao seu lar. Portanto, é importante saber lidar com esta vida cheia de surpresas e fazer dos problemas degraus para superação das dificuldades.

E sabe qual foi o comentário que mais me deixou feliz e me fez ter certeza de que cresci? Foi durante o último Au Pair Meeting, quando uma Alemã recém-chegada, de 21 anos, perguntou a minha idade, e em seguida me disse "Nossa, você tem jeito mesmo de mulher! Não parece uma menina, como a maioria". =)

6 comentários:

  1. Que bacana Aline, curti muito seu post. Espero que sua experiência continue sendo enriquecedora. Um grande abraço do Brasil

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    1. Obrigada, Nickolas! Feliz em ver que você lê aqui! :D
      Ah, e abraço recebido! \o/

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  2. Aline,
    Você que bancou as dispesas para carteira de motorista? Quanto ficou? O processo é demorado?

    Nossa já tem que renovar denovo? rs

    Eu sei que são muitas perguntas, mas essa é a última, ok?! - Você vai ficar dois anos certo? mesmo se fosse ficar apenas um precisaria renovar seu passaporte? e se eu tirar o passaporte no Brasil com 3 meses antes de embarcar, quando completar doze meses nos EUA eu tenho que renovar né? como é o processo e quanto custa?

    Adooro o blog,
    Abraço da Gabi =)

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    1. Oi, Gabi!

      Fui eu, sim, que paguei pela DL, mas custou só $4. Para renovar acho que são $10, mas estou esperando meu DS atualizado chegar, para ir ao DMV e pedir a renovação. Eu fiz um vídeo explicando o processo, neste post: http://www.6dejulho.com/2012/07/drivers-license.html

      Vou ficar dois anos, sim! A gente recebe um DS atualizado, com a nova data de estadia, mas o visto no passaporte fica expirado, por isso a necessidade de ir ao Brasil para renová-lo (o visto) caso você pretenda viajar fora dos EUA no seu segundo ano. Dentro dos EUA você continua legalmente, pelo fato de o DS estar atualizado, e como o programa é regulamentado pelo governo Americano, você tem permissão para morar aqui até a data estipulada.

      Sobre gastos gerais do programa, também já fiz um post sobre isso: http://www.6dejulho.com/2011/10/gastos-gerais-com-o-programa-de-au-pair.html

      Espero ter ajudado!
      E obrigada por passar por aqui! :D

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  3. Aiiiii, que legal. Espero ser sortuda assim também, sabe? Ter se adaptado bem, ter ido pra uma família que parece ser legal... Quero uma experiencia parecida. Acho que o mais importante é já ir preparada, né?
    Abraço!!

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