28 de nov de 2012

{conto} A Visita

"Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!
Quoth the raven, 'Nevermore.'" (Edgar Allan Poe, 1845)




Era um dia frio de fim de Outono, um domingo qualquer de Novembro. Dentre tantos planos, um lhe fugia à rotina das aventuras por lugares tão bem comentados. Naquela manhã, decidiu visitar aquele que a acompanhou por anos e lhe fez apaixonar-se, mas que nunca soube que ela existia.

As roupas que usaria para a ocasião, escolheu minuciosamente. Vestiu o suéter mais aconchegante, e combinou com seu casaco preferido. Antes de sair, pegou um de seus livros na mesa de cabeceira, daqueles cujo título já encontra-se apagado da capa, denunciando quantas vezes ela o relera.

Dirigiu silenciosamente. A cidade parecia ter parado, naquele dia. Poucos carros nas ruas, prédios e janelas fechados, cafeterias sem clientes. A cada pausa no semáforo, fitava o livro cuidadosamente repousado no assento ao lado. Em pouco mais de meia hora de viagem, estacionou o carro.

Andou por entre ruas onde encontrou prédios de diversas cores, embora parecessem abandonados. Cruzou alguns poucos moradores de rua, e lhes deixou as moedas que podia oferecer. Caminhou, sozinha, até encontrar as grades desconhecidas que cercavam aquele lugar prestes a lhe ser apresentado.

O portão, encontrou aberto. Observou o seu redor por alguns segundos, e então caminhou recinto adentro.

Pela trilha feita de tijolos desgastados, caminhou por entre tantas pessoas as quais nunca imaginou conhecer. Todas serenas, em silêncio. Olhou a foto de cada uma, leu nome por nome. Há décadas, todas estas já descansavam em paz.

Continuou caminhando. Levava seu livro abraçado contra o peito. Sorriu ao ler algumas escrituras e notar que alguns nomes soavam familiares. Dirigiu-se ao fundo do campo gramado, acompanhando a trilha nostálgica.

Lá estava ele, iluminado pela luz do sol, a qual, vinda de um ângulo certeiro, desenhava sua sombra sobre a grama de forma que, ao postar-se diante dele, ela estivesse protegida, mas ele continuasse à mostra, destacado pelo feixe de luz.

Ela esboçou dizer seu nome, mas tamanha era a felicidade, que um sorriso logo ganhou seus lábios, impedindo-lhes de exercerem qualquer outro movimento. Era quase impossível acreditar que ele estava ali, diante dela.

O túmulo datava de 1849. Seu nome, gravado em baixo relevo, continuava legível. Sobre ele, o seu mais conhecido personagem apresentava-se esculpido em pedra, junto de uma citação de seu mais famoso poema: o Corvo. Ao lado deste, algumas moedas deixadas por visitantes passados, como oferenda a ele.

Durante os primeiros segundos, ela foi incapaz de se mover. Respirou lentamente, enquanto seu olhar fitava cada detalhe da sepultura. Em seguida, sentou-se ao chão. Aconchegou-se, encostando-se nele. Abriu seu livro, e releu um de seus contos favoritos.

O tempo passou em silêncio, sem que ela pudesse perceber. Ouviu o vento sussurar seu nome: "Lenore...". Sentiu a grama abraçar-lhe. Assistiu ao Corvo alçar voo. Lançou seu olhar ao céu, e sorriu mais uma vez, para nunca mais.

27 de nov de 2012

Das coisas que vejo pelos EUA...

Enquanto não encontro tempo para escrever tudo o que estou em falta com o blog, deixo aqui um vídeo com menos de 30 segundos, de uma coisa que me arrancou um sorriso neste último domingo.

Eu estava no cemitério de Baltimore/MD, visitando o túmulo de Edgar Allan Poe, meu escritor favorito, quando de repente olhei para o lado e dei de cara com o rapaz do vídeo, parado no semáforo e tocando gaita, acompanhando a música do rádio, enquanto esperava pela luz verde.

Quando ele me viu, eu sorri e ele postou-se mais a frente, para que eu pudesse vê-lo pela janela do carro. Não tive dúvidas. Saquei a câmera do bolso, e registrei os poucos segundos até o semáforo abrir.


É, os EUA tem dessas coisas que fazem a gente prestar mais atenção ao que nos cerca. =)

15 de nov de 2012

Mais uma vez...

Percebi que passei um longo tempo sem postar. Ainda tenho fotos do Halloween e histórias para contar. Também não falei sobre o furacão Sandy, mas isso também significa que foi tudo bem por aqui, que nada de ruim aconteceu por conta disso. Além disso, ainda houve a eleição presidencial, a qual me deixou bastante apreensiva. E então eu também percebi que estou passando por mais uma fase, e por isso andei um pouco quieta.

Com o início do meu segundo ano, também veio o final do primeiro ano daquelas meninas que decidiram voltar. Acabei acompanhando pelo Facebook o retorno de uma Brasileira que veio no mesmo vôo que eu. A ansiedade, as malas, a contagem regressiva. E eu fiquei pensando "e se fosse eu?".

Enquanto Au Pair, eu tenho passado por mais fases que a Lua! A cada época eu me sinto de um jeito diferente, meus pensamentos mudam, surgem questionamentos. É natural, mas também é quando eu preciso de um tempo para mim, para organizar tudo e continuar em frente.

Passei por descobertas. Amigos que eu pensei serem de verdade, mostraram-se como só colegas a mais. A amiga que eu já sabia o quão importante era, ainda me mostrou o quão verdadeira é nossa amizade. E amigos que eu nem imaginava importarem-se comigo, simplesmente surpreenderam-me.

Este é um assunto bastante pessoal, íntimo mesmo, pois envolve sentimentos e eu não gosto muito de expôr este tipo de acontecimento, como já disse antes. Entretanto, decidi dar um sinal de vida para mostrar às futuras Au Pairs que, mesmo tendo a vida que eu esperava, eu também tenho altos e baixos. Viver sozinha não é fácil, e ter muito tempo para você te faz pensar demais, questionar muito.

Tudo está bem por aqui. Eu só estou passando por mais uma fase. Só preciso de um tempo para mim, para responder minhas perguntas a mim mesma. Eu só preciso me encontrar, mais uma vez. :)