27 de mar de 2013

Eu, indivíduo

"You guys might not know this, but I consider myself a bit of a loner.
I tend to think of myself as a one-man wolf pack."
(Alan Garner, The Hangover)

Quando adolescente conheci, dentre tantas formas de governo, o Anarquismo. Típico da adolescência skatista, fã de Punk Rock e Hard Core, a crítica ao Sistema sempre esteve presente na minha vida. Nunca fui revolucionária pra valer, nem mantenho uma posição política declarada, mas dentre os princípios do Anarquismo, um me chamou muito a atenção: o individualismo, o qual prioriza o indivíduo e suas vontades, assim como é aqui onde surge o famoso cliché de que "a minha liberdade termina onde começa a do próximo".

Ser individualista é diferente de ser egoísta. O fato de eu me auto priorizar como indivíduo não significa que eu nunca estarei disponível para ajudar o próximo. Eu posso ser uma pessoa solidária ainda que sendo individualista. Já ajudei inúmeras vezes, tanto pessoas que me retribuem isso em forma de amizade, quanto aqueles que, depois do favor prestado, nunca mais vieram me dizer um "bom dia" sequer. Ver a si mesmo como indivíduo faz com que busquemos meios de suprir nossas próprias necessidades sem que precisemos invadir o espaco do próximo, ou seja, sem dependermos da disposição - e boa vontade - alheia para que nossos próprios problemas sejam resolvidos.

Em um mundo dinâmico como o atual, é necessário ter iniciativa para chegar onde se quer. Claro que é mais fácil telefonar para "quem sabe fazer", em vez de descobrir por si mesmo, é menos trabalhoso. Mas será que assim você estará adquirindo conhecimento? Não dá para passar a vida toda esperando alguém para ligar na farmácia e fazer seu pedido de refil daquele medicamento diário. Não dá para esperar que alguém faça sua declaração de imposto - e pague para você. Não dá para esperar que alguém toque a sua campainha e te pergunte se você precisa de carona para ir fazer compras. Pessoas têm compromissos, e nem sempre você fará parte deles. Portanto, ser capaz de viver sozinho é algo indispensável, principalemente quando você está longe de todas as pessoas que sempre te cercaram, vivendo em um país que fala outra língua, que possui outras leis.

Meu pai costumava dizer que, assim que eu viesse para os EUA, eu não poderia mais ligar para ele ir me socorrer, ir me buscar onde quer que eu esteja, porque é fisicamente impossível. E foi assim, graças ao pensamento dele, que aprendi a "me virar sozinha", a "andar com as próprias pernas". Toda vez que estou diante de alguma situação que exige de mim uma escolha, eu tenho em mente que estou sozinha e que somente eu posso decidir por mim mesma. Ninguém pode me dizer o que fazer, porque ninguém vive a minha vida.

E é isso que as pessoas não entendem quando eu me recuso a ajudar, não por má vontade, mas porque não há nada que eu possa fazer, principalmente quando a pessoa não é também individualista e não procura, antes, encontrar soluções por si só. E em se tratando de Au Pairs, como é que elas conseguem cuidar de três ou quatro crianças, mas não conseguem cuidar de si mesmas?

As pessoas não estarão cem por cento à sua disposição o tempo todo, quando você bem entender. Antes de parar o seu trabalho para enviar um SMS a outra pessoa pedindo o telefone da oficina mecânica que você levou seu carro uma única vez, você também pensou que esta pessoa vai ter que parar o trabalho dela para procurar para você algo que não é útil a ela, tudo porque você não quis perder cinco minutos usando o Google? É justo tomar o tempo dos outros com algo tão simples que você poderia ter feito sozinho?

Ser individualista também é ser capaz de julgar suas próprias necessidades. Será que você precisa mesmo de outra pessoa te ajudando nas situacões mais randômicas possíveis? Até onde vai a sua capacidade de buscar - e encontrar - soluções para você mesmo?

E por ser individualista é que, no fim das contas, as pessoas me julgam como egoísta. Se eu não dou carona, ou se não estou disponível pra te fazer compania enquanto você compra pão na padaria - e eu só assisto - é porque eu tenho um bom motivo. E se fosse eu, será que você também estaria disponível vinte e quatro horas por dia para me acompanhar à banca de jornal, naquela tarde de domingo em que você está de folga, só porque fiquei entediada de assistir TV?

Tudo bem, tudo bem... Como diria Alan Garner, do filme Se Beber Não Case, eu considero a mim mesma como uma alcatéia de um lobo só. E assim a vida segue! :)

5 comentários:

  1. Independente do seu individualismo, continuo admirando-a. Me identifico muito com vc. E me vi em algumas situações que nunca passei por sempre estar colada aos meus pais e ter eles para me socorrer sempre que necessário. Mas sabe de uma coisa? Eu tô preparada pra isso, tenho buscado isso... sei que vai doer, dar desespero e vontade de voltar pra casa, mas preciso da minha independência e principalmente aprender a ser individualista sem perder a minha essência. Gostei das suas verdades e adoro a maneira como escreve. Ainda quero escrever tão bem quanto vc (se possível) rs*. Não sei se já te contei, mas tbm tenho um blog. Ele ainda é um baby, mas eu me sinto bem quando partilho minhas ideias e os fatos ocorrentes de minha vida naquele canto. Se quiser dar uma olhadinha, é: http://malasmemoriasechocolates.blogspot.com.br/
    B*jOs e força na peruca.

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    1. Nossa, me emocionei com o comentário! hehe
      Eu também sempre fui muito apegada aos meus pais, e eles também sempre estiveram prontos pra me ajudar. Vir para os EUA foi a melhor coisa nas nossas vidas. Eu cresci e vi que sou capaz de viver sozinha, assim como eles também viram que todo o tempo dedicado à minha educação foi muito bem aproveitado.
      Adorei o nome do seu blog, e já me inscrevi pra receber as atualizações. Se precisar de qualquer coisa, estamos aí. Beijos! ;)

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  2. Que bom que gostou do meu comentário. Gosto muuuuito de ajudar as pessoas, mesmo que seja com pequenas palavras. Isso me faz muuuuito bem. E é aí que entra a minha vontade de ser individualista, pq independente de ajudar por simplesmente gostar, espero poder contar com algumas pessoas quando preciso e é aí que eu fico extremamente decepcionada, me martirizo e me questiono. Embora nunca ter sido skatista e sim bailarina rs*, tbm sempre fui bastante crítica, política e mantenho o senso de justiça bastante exacerbado. Gosto de ser quem e como sou, embora meus defeitos sejam na maioria das vezes prejudiciais a mim mesma, tô feliz como sou e não pretendo mudar, apenas amadurecer e melhorar.
    Que bom tbm que gostou do (nome) meu blog.
    Seu post me rendeu várias reflexões e me encontro num momento feminino propício à isso. hahahahahhahahhahahah
    Espero não ter enchido seu nível de paciência ao máximo.
    B*jOs e ótimo fim de quinta.

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    1. E também já me decepcionei muito com as pessoas, mas aí chega uma hora em que você vê que é bem verdade aquele ditado "fazer o bem sem olhar a quem". Você ajuda, faz o que pode. Se a pessoa retribuir, ótimo. Se não retribuir, pelo menos você fez alguma diferença na vida da pessoa, e a vida segue. Não adianta ficar remoendo, até porque nada também acontece por acaso. O que acontece é que com o tempo você aprende a lidar melhor com essas situações. Hoje eu já não enlouqueço mais. E se a pessoa sair da minha vida, é porque não era mesmo pra ficar, era pra ser somente passageiro. A gente cai, levanta, conserta, e por aí vai... :)

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  3. É vida que segue. E tbm nunca nos é tirado algo ou alguém sem que tenhamos a oportunidade do novo. Isso é que nos deixa mais feliz, pelo menos eu fico. =)

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