25 de abr de 2013

The Odd Man Out

"If I had a chance for another try,
I wouldn't change a thing it's made me all of who I am inside."
(Angels & Airwaves - Rite of Spring)

Sabe quando você está em um grupo, mas não se sente realmente parte do mesmo?

Eu sempre fui a peça estranha, diferente, do jogo. Durante o Ensino Médio eu não usava maquiagem e salto alto como as outras meninas. Eu tinha amigos skatistas, e me vestia como eles. Dentro do grupo de meninos, eu era aceita e protegida. Aos olhos das meninas, eu estava fora do padrão. As mesmas chegaram a fazer piada, me perguntando se eu era homossexual, porque eu tinha muitos amigos e nenhum namorado, além de não me vestir toda "menininha". Para mim, e para os meus amigos, eu era a versão feminina deles, e eles nunca me julgaram.

No colégio técnico não foi diferente. Desta vez, eu cursava Informática, tinha amigos do curso de Mecânica e, segundo as bocas alheias, todos eram meus namorados, só porque diariamente eles vinham me cumprimentar com um abraço seguido de um beijo no rosto.

Assim a vida seguiu, sempre estando entre os homens (e sendo julgada por isso), seja no trabalho, seja no grupo de amigos. Esse é o meu clube, é deste ambiente que eu gosto, é onde me sinto em casa. Fui feliz, principalmente no meu último emprego, onde também havia mulheres conosco e todas elas eram um tanto quanto parecidas comigo. Foi difícil deixar aquele time quando decidi ser Au Pair, mesmo estando lá há pouco tempo.

Ser Au Pair foi o primeiro emprego que me fez trabalhar quase exclusivamente com mulheres (há homens na minha área, mas não tenho contato). E como isso é difícil! Aliás, também foi sendo Au Pair que eu pude perceber como a idade faz uma grande diferença nas pessoas. Dos dezoito aos vinte e seis anos, faixa de idade permitida neste intercâmbio, há um enorme abismo entre deixar de ser adolescente para tornar-se adulto. Maturidade é algo que não depende da idade, mas de experiências, e nem todo mundo tem consciência disso.

Morar nos EUA sempre foi algo que almejei muito, e não me importava quando isso aconteceria nem quanto tempo duraria. O fato é que hoje estou aqui, completando um ano e meio de "América" e sendo plenamente feliz, pois consegui não só realizar um sonho, como também levá-lo até o fim (o qual chegará, infelizmente, em seis meses).

Levei meu intercâmbio a sério, como um novo emprego, diferente dos anteriores, mas tão importante quanto. Ou até mais, visto que agora não trabalho mais com computadores e códigos. Trabalho com vidas, o que não me permite erros, nem os mínimos. Não dá para reiniciar uma vida assim como se faz com um servidor. Não existe backup a ser restaurado.

Eu realmente me mudei para os EUA, vim de coração aberto, como se essa estadia fosse durar para sempre, como se eu tivesse transformado a minha vida para começar do zero aqui. Mergulhei, me joguei, me entreguei, me deixei levar. Guardei a minha vida de Brasil no coração, como se ela tivesse sido uma fase que chegou ao fim, até então. Só assim eu conseguiria me adaptar e aproveitar ao máximo esta nova experiência. Fiz deste lugar o meu lar, e eu pertenço a este país durante o tempo em que estiver aqui.

Entretanto, quando olho para outras meninas, principalmente as Brasileiras, eu vejo que essa não é uma visão muito comum sobre o programa de Au Pair. Muitas viajam para cá, mas continuam vivendo no Brasil, não conseguem desapegar e com isso vivem comparando, reclamando, dizendo que aqui não tem isso ou aquilo, que o Brasil é muito melhor etc.

De fato, a gente passa a dar mais valor à família e até ao nosso país quando estamos longe. Claro que o Brasil tem lugares lindos, que as praias são diferentes daqui, que a cultura parece ser mais acolhedora. Porém, o Brasileiro também é um povo o qual não pensa duas vezes antes de trapacear para se dar bem na vida, o qual possui uma Polícia que mais amedronta os inocentes em vez de protegê-los, o qual muitas vezes trata mal o consumidor.

Nada tira de mim a sensação de que nos EUA, pelo menos aqui na área da Virginia, eu estou sempre segura, sempre sou atendida com um sorriso, e que a Polícia está aqui para me proteger e não para me oprimir. Vejo que as leis funcionam, e que as pessoas as respeitam. No trânsito, não existem brigas. Pagamos impostos e não vejo ninguém reclamar (no caso das Au Pairs, pagamos muito mais do que um Americano que ganha o mesmo que a gente). Pagamos pedágios e vemos rodovias em ótimas condições, isso quando não estão em processo de expansão. Tudo isso me dá a impressão de que os EUA funcionam de uma forma muito lógica. Dá-se e se recebe no mesmo nível.

E é aí que eu volto naquele mesmo sentimento de ser a peça estranha do jogo, o peixe fora d'água, aquele indivíduo mal visto pelo grupo maior, the odd man out, só pelo fato de ter uma opinião distinta, por ser diferente da maioria. Porque eu vejo os dois países desta forma, e prefiro estar aqui a estar lá, sou julgada como "a menina que se sente Americana, sem ao menos ter cidadania, e que esqueceu das origens".

Nunca me esqueci das minhas origens, e é por este exato motivo que eu procuro sempre aprender a ser melhor me espelhando nas boas características dos Americanos. Afinal, todo conhecimento é válido, pois não se muda o mundo sem antes mudar a si mesmo. Eu fiz minha parte enquanto morava no Brasil. Exerci todos os direitos de cidadã que me foram dados. Votei pela primeira vez, e foi para Presidente, quando tinha dezesseis anos, porque apesar de não ser obrigatório, essa era a minha chance de, através do voto, expressar a minha opinião e começar a fazer a minha parte. Me importo com o meu país, e adoraria vê-lo evoluir. Por isso mesmo estou aqui fora, investindo em mim, para quando voltar ter algo a acrescentar. Não vou sair por aí gritando que nos EUA isso ou aquilo é melhor. Simplesmente vou continuar agindo da forma que aprendi a ser aqui, sempre dizendo "obrigada" às pessoas, sempre sorrir ao conversar com quem quer que seja, cumprimentar os vizinhos, e tantas outras pequenas ações que fazem o dia ficar melhor.

Amar o meu país não significa que eu concordo com tudo o que tem por lá, assim como o Governo, o sistema educacional, cultura, e até mesmo o "jeito Brasileiro" das pessoas. E ser feliz vivendo em outro país não significa que não gosto da minha origem, ou que a esqueci e mudei de nacionalidade. Significa que eu encontrei um lugar para fazer dele o meu lar enquanto nele eu estiver.

Não é fácil ver as coisas por um outro ângulo, e com isso ter uma opinião difrente da maioria. Entretanto, é isso que me faz ver o quanto amadureci, o quanto mudei a mim mesma nestes últimos dezoito meses. E é dessa pessoa atual que eu gosto, esta sou eu de verdade. Não me importo de ser vista como a ovelha negra, quando estou em paz com a minha própria vida.

11 comentários:

  1. Ótimo texto, parabéns !
    Sempre acompanho seu blog e desejo tudo de bom para você :)

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  2. Lindo texto, eu penso exatamento como você!

    E a ultima frase é perfeita!

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  3. Perfeito. Penso igual!
    Mila Ferraz

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  4. Aline muito bom seu blog.. Acredito no mesmo que você..
    Good Luck Girl

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  5. Line, amei esse post! Principalmente essas 3 partes: sobre cuidar de vidas e o valor que isso tem, sobre as pequenas coisas que tornam o dia-a-dia melhor e sobre o fato de gostar de estar aqui não ter nada a ver com esquecer suas origens!

    Adoro ter um tempinho pra ler teu blog. Sempre acrescenta! :)
    Beijos,
    Fernanda Fioravante

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    1. Fer, adoro ver você por aqui! :D
      Obrigada por sempre dedicar um tempinho para as nossas conversas.
      Beijos!!!

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  6. Tb amo o Brasil, mas nem por isso eu nego que quando fui ai nos EUA me senti segura, senti pagando o preço justo pelas coisas e admirei muita a organização e honestidade dos americanos. Belo post. abraços de sua mais nova leitora, te vi no vlog do Realidade Americana.

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